O Biper que não voltou | um conto de Os Dias de Aço e Luz
Às vezes a ordem pode depender do silêncio.
Os capítulos são lançados quinzenalmente.
Os contos saem nas semanas entre os capítulos.
Os contos podem ser lidos separadamente, e contam suas próprias estórias.
Mas tudo se conecta no romance.
Capítulo 1 | Conto 4 | Índice
Rogus gostava da rotina do hangar. Cada biper tinha seu lugar, cada lugar tinha seu número, cada número tinha uma história de manutenção registrada em um bloco de metal que ninguém lia. Ele era o técnico mais velho da seção de transporte leve dos Gaari, e sabia coisas sobre aquelas máquinas que não estavam em nenhum manual. Sabia, por exemplo, que o biper de código TR-07 chiava no motor direito quando atingia velocidade de cruzeiro, mas passava depois de alguns minutos. Sabia que o TR-12 consumia mais combustível que os outros, mas ninguém acreditava quando ele reportava. Sabia, também, que todos os bipers estavam no hangar ao final do turno. Até aquela noite.
Ele percebeu a ausência antes de conferir o inventário. O espaço onde o TR-09 descansava estava vazio, e a lona que cobria o banco do piloto estava jogada no chão, como se alguém tivesse saído com pressa. Rogus olhou ao redor. Os outros técnicos já haviam ido embora. O hangar estava silencioso, iluminado apenas pelos reatores verdes que pulsavam lá fora.
Consultou o registro de saída. Nenhum biper havia sido requisitado naquele turno. Conferiu novamente. Nada. Rogus podia reportar. Podia ligar para o superior de plantão e dizer que um veículo estava fora sem autorização. As consequências para o piloto, seja quem fosse, seriam severas. Talvez uma suspensão. Talvez uma investigação. Talvez pior.
Ele ficou em silêncio por um longo tempo, olhando para o espaço vazio. Depois, sentou-se no banco de metal próximo à entrada e esperou. Não sabia quem tinha levado o biper. Não sabia para onde. Não sabia se voltaria. Mas decidiu que não seria ele a entregar o responsável. Porque aprendera em quarenta anos de serviço: algumas perguntas não são feitas. Algumas ausências não são notadas. Algumas regras quando seguidas à risca só trazem problemas para quem as segue.
O biper voltou antes do amanhecer.
Rogus ouviu o motor chiado característico do TR-07, mas logo percebeu que o som vinha de outro lugar. Era o TR-09. Ele nunca chiara antes. Agora chiaria também.
A piloto desceu. Era uma elfa jovem, que Rogus não reconheceu. Não usava farda de milícia, apenas roupas escuras e sujas de poeira. Tinha os cabelos desgrenhados e os olhos vermelhos, não de choro, de cansaço. Ela não olhou para ele. Apenas estacionou o biper no lugar vazio, cobriu com a lona e saiu.
Rogus não perguntou seu nome. Não perguntou de onde vinha. Não perguntou o que carregava no bolso interno do colete.
Na manhã seguinte, registrou o TR-09 como disponível para uso. Não mencionou a ausência noturna. Não mencionou o chiado no motor. Quando o superior perguntou se tudo estava em ordem, Rogus disse que sim.
Guardou as perguntas que não fez no fundo da memória, onde as coisas que não se entende esperam a vez.
O biper continuou chiando. Rogus nunca contou para ninguém por quê.
Capítulo 1 | Conto 4 | Índice
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