A Herdeira e a Sombra | Capítulo 2 | Coisas que Ainda Não Doem
Gladish desceu para entender o que sustentava o que ela agora comandava. Não gostou do que viu. Mas guardou.
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O elevador desceu como uma flecha solta.
Gladish segurou a barra lateral e sentiu o vento subir pelo fosso aberto, bagunçando os seus cabelos negros. Um dia antes, seria só vento. Agora o manto pesava nela mesmo guardado no armário, e o vento parecia ter se tornado em cobrança.
Ela conhecia a cidade de cor. Os níveis empilhados, os elevadores correndo pelos troncos, o solo das fadas lá no fundo onde ninguém mais pisava. Não desceu para ver. Desceu porque, pela primeira vez, precisava entender o que sustentava o que ela agora comandava.
Foi então que os viu.
Três bipers cortavam o espaço entre os níveis inferiores, veículos planadores para duas pessoas, rápidos demais para o tráfego comum. Pilotados por mensageiros das milícias em roupas escuras, desviavam dos pedestres com reflexos de treinamento militar. Um dos pilotos passou tão perto do elevador que Gladish sentiu o vento no rosto. Vinham do nível mais baixo, o que dava para o perímetro da floresta, e subiam carregados. Três num só turno. Antes era um, e nem todo dia.
Correios de guerra.
O pensamento veio apenas como uma constatação passageira. O elevador desacelerou. Ela saltou antes que a porta abrisse completamente, pisando no nível comercial com a pressa de quem já perdeu tempo demais olhando para o alto.
O mercado fazia o barulho de sempre. Anões berrando preços, crianças correndo, chá quente brigando com graxa e o doce das flores. Gladish passou reto. Sahkiz era aquilo. Ela já sabia.
O que ela ainda não tinha parado para pensar estava embaixo do barulho. Não dentro.
A tecnologia não era especial. Era cotidiana. Estava nos seladores de porta, nos rádios eletrostáticos, nos conectores de pulso que todos usavam para pagar compras, abrir passagens ou confirmar identidade. Estava nos reatores de metal prateado que vibravam suavemente sempre que alguém passava perto.
Confiamos tanto nisso.
Gladish cortou o pensamento antes do fim. Não era a hora. Ou talvez fosse, e ela é que não queria admitir.
O nível técnico ficava dois andares abaixo, mais próximo do solo mas ainda acima da zona das fadas. Ela desceu por uma escada externa contornando um dos troncos, evitando o elevador lotado. Lá embaixo, o movimento era menor. Mais ferramentas. Menos conversa.
Foi ali que viu Ottoradr.
O magricela estava curvado sobre uma mesa metálica dobrável, cercado por três telas holográficas flutuantes. Seu moicano preto estava desalinhado, sinal de que passara a noite trabalhando. A argola no septo brilhava sob a luz dos equipamentos.
— Otto.
Ele não respondeu.
Gladish se aproximou. O híbrido orc-elfo continuava digitando códigos com os dedais conectados à placa principal, os olhos fixos em uma das telas.
— Ottoradr.
Ele levantou a mão. Espera.
Ela esperou. Conhecia Otto desde criança. Sabia que interrompê-lo durante uma linha de raciocínio era crime imperdoável. Ao lado dele, outro técnico trabalhava, mais jovem, de cabelos brancos desgrenhados e orelhas que denunciavam descendência fada: Grable. Gladish não o conhecia bem, mas ouvira falar. Promissor, diziam. Insolente, diziam outros.
Grable manuseava um scanner portátil apontado para um dos reatores mais próximos. A máquina emitia um zumbido contínuo, interrompido por pequenos picos sonoros que ele anotava em um bloco físico, raro naquela época.
— Flutuação de 0,3% — murmurou Grable, mais para si do que para Otto. — Nada crítico, mas frequente.
— Registra — respondeu Ottoradr sem tirar os olhos da tela. — Se chegar a 0,5%, me avisa.
Grable anotou. Gladish observou o movimento. Tinha todo o jeito de manutenção de rotina.
Ainda assim.
Ela não sabia por que, mas aqueles 0,3% grudaram em sua mente como uma teia de aranha-cortês gruda-se à pele dos descuidados.
Ottoradr finalmente desligou os dedais e girou a cadeira. Os olhos dele estavam vermelhos, denunciando o cansaço.
— Gladish. Não sabia que você vinha hoje.
— Não vim. Estou passando.
Ele arqueou uma sobrancelha. Claro.
— Quer dizer que você desceu dois níveis fora de rota, atravessou o mercado lotado e chegou na área técnica mais suja da cidade... por acaso.
Gladish não respondeu.
Ottoradr suspirou. As telas holográficas piscaram uma última vez antes de desaparecer.
— Precisa de alguma coisa ou veio só para atrapalhar?
— Vim ver como as coisas funcionam.
Ele a olhou por um longo segundo. Depois riu, aquele riso agudo que Gladish conhecia desde a adolescência.
— Agora que você é líder, resolveu aprender? Bom. Devia ter feito isso antes.
Ele não está errado.
Grable continuava trabalhando, mas Gladish percebeu que o jovem técnico desacelerara os movimentos. Escutando. Sempre escutando.
— O que ele está fazendo? — Gladish apontou com o queixo na direção de Grable.
— Monitoramento de rotina. Os reatores apresentam micro flutuações há algumas semanas. Nada fora da margem de segurança. Mas...
Ottoradr hesitou.
— Mas?
— Mas ninguém sabe explicar por que estão flutuando. As árvores continuam saudáveis. A demanda energética não mudou. Teoricamente, deveria estar estável.
Teoricamente.
Gladish olhou para Grable. O técnico desviou o olhar rápido demais.
— E você? — perguntou ela. — O que acha?
Grable abriu a boca, fechou, abriu de novo.
— Acho — começou devagar — que sistemas confiáveis demais deixam a gente preguiçoso.
Ottoradr tossiu. Pode ser um alerta. Pode ser apenas um resfriado. Gladish não perguntou qual. Ela perguntou outra coisa.
— Há quanto tempo começaram essas semanas?
Grable consultou o bloco. Disse a data. Gladish fez a conta em silêncio e não gostou do resultado. Era mais ou menos quando os correios das milícias tinham passado a subir em três. Ela se despediu com um aceno. Otto já estava de costas, religando os dedais. Grable voltou ao scanner.
Subindo de volta para os níveis superiores, Gladish tentou não pensar nas flutuações. Não era função dela. Ela liderava pessoas, não máquinas. O pai dizia isso sempre: confie nos técnicos, Gladish. Eles veem o que você não vê. O problema é que, agora, ela começava a se perguntar se alguém estava vendo alguma coisa.
O elevador subiu. A cidade respirava ao seu redor. Os reatores pulsavam sua luz, os veículos cortavam o ar, as crianças corriam. Vendedores berravam. Tudo funcionava.
Por enquanto.
O pensamento voltou. Ela não o convidou. Simplesmente estava ali. Gladish apertou os lábios e desviou o olhar para o horizonte de copas roxas e verdes. Não havia nada lá além de árvores e céu. Nenhum perigo visível. Nenhuma ameaça anunciada, a não ser três planadores subindo cheios e meio por cento que ninguém sabia explicar. Coisas que, separadas, não diziam nada. Gladish guardou as duas no mesmo canto da cabeça e tentou não juntá-las.
Preguiça. Foi o que o técnico disse. Sistemas confiáveis demais deixam as pessoas preguiçosas.
Ela não sabia se aquilo era um diagnóstico ou uma profecia. Mas guardou a frase no fundo da memória, onde as coisas que ainda não doem esperam sua vez.
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Esse capítulo foi mais gostoso de ler que o primeiro. Esse suspense narrativo está bom. Dá pra sentir a tensão no ar!
muito bom, animado para o próximo!