A Herdeira e a Sombra | Capítulo 3 | O Peso do Comando
O poder não se ganha com espadas. Se ganha com votos. E se perde com silêncio.
Capítulo 2 | Índice | Capítulo 4
A cúpula da Assembleia ficava no nível mais alto de Sahkiz. Gladish subiu os degraus largos que levavam à entrada principal, escoltada por dois guardas que não diziam palavra. O edifício era uma das poucas construções que não abraçavam nenhuma árvore, erguia-se sozinho, sustentado por vigas de aço que desciam até o primeiro nível como raízes. Ela já estivera ali dezenas de vezes como ouvinte e espectadora. Hoje era diferente. Hoje ela ocuparia um dos assentos no círculo.
Nove plataformas. Nove milícias. E eu aprendendo a jogar o jogo.
Os guardas se detiveram antes da porta dupla. Gladish entrou sozinha. O interior da cúpula era uma concavidade imensa. Lá embaixo, no fundo, as plataformas se elevavam em um círculo metálico, havia nove púlpitos de metal negro, cada um em frente aos pares de assentos anatômicos. No centro, um círculo vazio, onde os réus ficariam, em outras circunstâncias. Hoje não havia réus, só líderes. E Gladish não conseguiu deixar de notar que, ali, o lugar de julgar e o lugar de governar eram exatamente o mesmo.
Gladish desceu a escada central, seus passos ecoando no aço. Os outros já estavam ali. Sentados, observando e pesando o que acontecia. Tisha Orgmund ocupava a plataforma dos Bard com a postura de quem não precisa se provar para ninguém. Vestia um traje sóbrio, azul escuro, sem os excessos que usava em eventos sociais. Seus olhos castanhos acompanharam Gladish do momento em que ela entrou até o instante em que se sentou.
Aalin Hurtholm, dos Venue, inclinou levemente a cabeça. Nem cumprimento, nem desdém. Apenas reconhecimento. Liut Carcamenon, dos Arrtin, murmurava algo que parecia uma oração, os olhos semicerrados. Torod Hurlo, dos Corvos, nem sequer olhou na direção dela. Marchan Teitor estava na plataforma dos Olego. O elfo ancião mantinha as mãos apoiadas no púlpito, os olhos fixos em algum ponto distante do salão. Gladish não conseguiu ler sua expressão, e isso a incomodou.
— Iniciamos — disse Tisha, sem cerimônia. A voz dela preencheu a cúpula com uma clareza que dispensava amplificação. — Pauta única. Segurança de Sahkiz.
Gladish prendeu a respiração. Primeira reunião. Direto ao ponto.
— Relatório da última década mostra redução consistente de ameaças — continuou Tisha. — Nenhum contato hostil com forças do Conselho nos últimos seis anos. Nenhuma violação dos perímetros externos. Os sistemas de camuflagem permanecem estáveis. — Ela fez uma pausa e olhou ao redor. — Diante disso, proponho reavaliarmos o nível de investimento em patrulhas dentro dos perímetros adjacentes. Os recursos poderiam ser realocados para infraestrutura interna.
O silêncio foi breve.
— Quanto de redução? — perguntou Ictius Nêmarî, dos Klorr, acariciando a barba grisalha.
— Quinze por cento. Das patrulhas nos perímetros mais próximos. As de médio e longo alcance permanecem, e farão varreduras nos perímetros internos antes e após serem rendidas.
Quinze por cento.
Gladish fez o cálculo rápido. Menos olhos no campo. Mais confiança no que não podia ser visto.
Torod Hurlo falou pela primeira vez, a voz grave como pedra sendo arrastada.
— Apoio. Nossos guerreiros estão há anos sem ver um inimigo. Isso gera complacência.
— Ou experiência — contrapôs Aalin Hurtholm, com calma. — O fato de não termos encontrado ameaças não significa que elas não existam.
Tisha virou-se para ele.
— O que você sugere, então?
— Manutenção do modelo atual. Sem redução.
— E os recursos? — insistiu Tisha. — Nada é infinito.
Aalin não respondeu de imediato. Apenas sustentou o olhar.
Gladish ouvia cada palavra, cada entrelinha. Eles estão discutindo a defesa como se fosse uma conta a pagar. Como se o perigo fosse uma despesa que pode ser cortada.
— Gladish Toth — disse Tisha, de repente. — A nova líder dos Gaari. Ainda não se pronunciou.
Todas as cabeças se viraram para ela. Gladish sentiu o peso de estar ali, no círculo, com aquelas pessoas que jogavam política como outros jogavam um jogo de tabuleiro.
— Estou ouvindo — respondeu. — Aprendendo.
Torod soltou um ruído que podia ser um riso ou um grunhido.
— Aprender é bom. Enquanto aprende, os que sabem decidem.
Marchan moveu-se em sua plataforma. O primeiro movimento desde que Gladish entrara.
— Torod — disse o elfo ancião, a voz baixa mas perfeita. — A humildade não é fraqueza. Gladish acabou de chegar. Dê tempo a ela.
Ele me defendeu. Ou apenas cortou a grosseria de Torod? Gladish não sabia. Continuou ouvindo.
O debate se alongou. Ictius sugeriu um meio-termo, redução de dez por cento, com reavaliação em seis meses. Liut apoiou com um aceno silencioso. Nikî Lîetmure, dos Harpin, votou com Tisha sem dizer uma palavra sequer, apenas erguendo a mão. Quando a votação terminou, a proposta original de Tisha foi aprovada. Quinze por cento menos patrulhas nos perímetros mais próximos. Mais recursos para dentro. Gladish se absteve do voto.
Minha primeira decisão como líder foi não decidir.
A assembleia se dissolveu. Os líderes se levantaram, alguns trocando palavras em voz baixa, outros saindo em silêncio. Gladish permaneceu sentada por tempo demais.
Marchan Teitor aproximou-se. O manto leve fazia tilintar suavemente os adornos de pedra azul-clara a cada passo. De perto, suas feições estavam mais cansadas do que pareciam do outro lado da cúpula.
— A primeira reunião é sempre a mais difícil — disse ele.
— Pareceu fácil para Tisha.
— Tisha está na assembleia há quarenta anos. Você, há quarenta minutos.
Gladish ergueu o olhar.
— Você votou com ela.
— Votei. Porque a proposta dela era razoável. Não porque confio plenamente nela.
Razoável. Gladish repetiu a palavra em silêncio. Não gostou do sabor.
— E você confia nos sistemas de camuflagem? Tanto a ponto de reduzir patrulhas?
Marchan demorou a responder. Quando respondeu, foi com outra pergunta.
— Você confia na própria sombra, Gladish? A ponto de não olhar para trás?
Ele não esperou resposta. Apenas se afastou, subindo a escada com passos que não tilintavam mais. Gladish ficou. O salão esvaziou. Os guardas permaneciam nas entradas, imóveis. As plataformas vazias pareciam maiores do que quando ocupadas.
Quinze por cento.
Ela tentou se convencer de que não era muito. Tentou acreditar que Tisha estava certa, que os sistemas de camuflagem eram suficientes, que seis anos sem contato com o Conselho significavam algo além de sorte. Não conseguiu. O pai ensinara: a segurança desaparece primeiro nos discursos, depois nos orçamentos, por último nas vidas.
Ela pensou nos 0,3% que Grable anotava no nível técnico. Pensou nos três correios que tinham subido carregados naquela manhã. Pensou nos quinze por cento que a assembleia acabara de cortar. Três coisas pequenas, cada uma inofensiva sozinha. Gladish continuava se recusando a colocar as três na mesma frase.
Gladish levantou-se. A caminhada até a saída foi longa demais para um salão que ela conhecia desde criança. Lá fora, a cidade respirava. Os reatores pulsavam sua luz, os elevadores subiam e desciam, crianças corriam, vendedores berravam. Tudo funcionava. Seis anos sem contato. Sistemas confiáveis demais. E ninguém olhando para fora.
Ela não sabia se aquilo era um diagnóstico ou uma profecia. Só sabia que, na primeira reunião em que participou como líder, não conseguiu votar contra. Ficou no meio. E ficou com a sensação de que havia perdido do mesmo jeito.
Lá fora, os reatores pulsavam. A cidade funcionava. Por enquanto.
Gladish desceu os níveis em silêncio. O elevador externo estava vazio. Ela apreciou o alívio temporário. No nível comercial, o movimento diminuía. As barracas fechavam, as luzes dos reatores verdes se tornavam a fonte principal de claridade. Ela tomou um caminho mais longo, evitando a praça central.
Foi quando viu.
Um homem estava sentado sozinho em um banco de metal reciclado, encostado em um dos pilares que sustentavam o nível superior. Magro, atlético, sobretudo felpudo sem mangas. O cabelo negro formava um curto moicano desalinhado. Tatuagens tribais percorriam sua cabeça e sumiam no pescoço. A cabeça estava baixa. O copo na mão balançava com um líquido transparente que borbulhava.
Gladish parou. Opto não a viu. Ou fingiu que não. Ela hesitou por um segundo. Depois se aproximou.
— Você não deveria estar aqui.
Ele ergueu a cabeça. As pupilas tinham traços de medição no entorno, como uma trena. Giravam, expandiam, contraíam.
— Nem você deveria estar na assembleia. E no entanto aí está.
A voz saiu arrastada, mas os olhos estavam perfeitamente lúcidos.
— Você está bêbado.
— Estou tentando.
Gladish sentou-se ao seu lado. O banco rangeu.
— A reunião foi um desastre.
— Sei.
— Como sabe?
Opto bebeu mais um gole antes de responder, fez um estalo com a língua apreciando o sabor.
— Porque todas são. Desde que seu pai morreu, ninguém ali sabe o que está fazendo. Incluindo você.
Ela não revidou. Porque ele não estava totalmente errado.
— Tisha propôs cortar patrulhas. Quinze por cento.
— E você votou contra?
— Me abstive.
Opto riu. Um riso amargo, sem humor.
— A primeira decisão da grande líder foi não decidir. Lindo.
— O que você queria que eu fizesse? Gritar? Bater na mesa? Não tenho voto suficiente para ganhar.
— Então aprenda a conseguir.
— Marchan me disse para vigiar. Para olhar para trás.
Opto soltou o ar pelo nariz, quase um riso.
— Vigiar. Marchan tem a cautela de um elfo que viveu por séculos. Certamente você também a tem. Mas agora, Sahkiz não precisa de mais cautela. Precisa da ousadia de um orc que defende sua família.
Ela o encarou.
— Você está aposentado. Não tem mais voz.
— Tenho essa aqui — ele ergueu o copo — e continuo tendo razão com mais frequência do que gostaria.
O silêncio se alongou. Lá embaixo, os reatores pulsavam.
— Por que você veio falar comigo? — perguntou Gladish.
Opto demorou a responder.
— Porque você é a única ali que ainda pergunta se pode estar errada. O resto já tem certeza. E gente com certeza é mais perigosa que inimigo.
Ele se levantou. O copo estava vazio.
— Vai ficar aí remoendo ou vai aprender com o que aconteceu hoje?
— Vou aprender — disse Gladish.
— Então comece agora. Amanhã é tarde demais.
Opto se afastou, misturando-se ao fluxo esparso de civis que subiam para os níveis residenciais. Gladish não o chamou de volta.
Ficou ali, sentada no banco, ouvindo os reatores pulsarem.
Ele não disse que estou errada. Disse que estou sozinha.
Mas pela primeira vez na noite, não se sentiu tão sozinha assim.
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Salvandoooo pra acompanhar <3
muito bom! no aguardo do próximo!
e tadinha da Gladish, em um dia de cargo já ter que resolver B.O de cachorro velho é foda, ainda mais levando em consideração que ela não tá preparada
ansioso pra descobrir o que ela vai fazer