A Herdeira e a Sombra | Capítulo 6 | Dias Iguais
As patrulhas clandestinas se repetem diariamente, enquanto o peso da liderança se intensifica à medida que Gladish começa a se questionar sobre suas próprias decisões.
Capítulo 1 | Índice | Capítulo 5
O aposento de Gladish não havia sido feito para duas pessoas, era um cubículo de metal prateado e escovado de três cômodos. A cozinha pequena, o banheiro. E o quarto. Monótono, sem nenhum sinal de que uma pessoa ali vivia a não ser pelo armário, uma escrivaninha e a cama de solteiro de frente para a janela.
A janela havia sido sua parte preferida quando da escolha do local. Uma vista para uma das praças abertas nos níveis médios que permitia observar o povo sahkiano em sua plenitude. Mas agora que era líder dos Gaari, Gladish parecia indiferente a isto e a qualquer outra coisa que pudesse se importar antes da morte de seu pai.
Deitada na cama, fitava o teto perfeitamente liso mergulhada em todas as preocupações que haviam abruptamente tomado seus pensamentos desde o dia da cerimônia. As oscilações nos reatores, a redução das patrulhas, a forma como havia sido tratada pelos outros líderes e a decisão quase desesperada que havia sido forçada a tomar.
Política é uma merda. Essa é a verdade.
O pensamento veio como uma rota de fuga daquele emaranhado. Como se sua própria mente se forçasse a lembrar de algo melhor, um ponto de refúgio que pudesse proteger sua sanidade e sua vontade dos deveres que havia adquirido. De repente a imagem de Opto naquela cama com ela veio à sua mente. Seus braços a envolvendo, a pressão de seu corpo contra o dela, o toque de sua pele e suas palavras sussurradas em seu ouvido.
Logo esta lembrança remeteu a outras noites dos dois juntos. Nos campos tizianos quando eram mais novos, nas peregrinações, e dentro da própria Sahkiz. Havia uma única lembrança entre os dois que ela preferira ignorar completamente, não naquela noite. Naquela noite foi forçada a lembrar. A noite em que escolhera o dever.
Ele estava aqui.
Passou o braço sobre a colcha cor de musgo. Lembrou-se dele se levantando e retirando suas coisas que estavam dentro do armário. Lembrou-se dos seus próprios pedidos — tão vãos quanto soavam ridículos agora — para que ele não levasse tudo para esse lado. Opto não quis ouvir.
“Opto, você sabe o que é. O que você tem dentro de você.”
Ele riu, um riso amargo, sem humor.
“Tenho dentro de mim o que seu pai colocou. Para proteger Sahkiz. Para proteger você.”
“E agora isso é um risco. Se descobrirem...”
“Gladish, eu já entendi. E acho que por tudo isso é melhor que eu esteja afastado de você, agora que é uma líder. Faz tanto sentido quanto me aposentar no auge da minha forma, se o objetivo é guardar o segredo.”
Ela havia tentado argumentar, não lembrava bem com o que. Afinal de contas as palavras de Opto não pareciam somente ressentimento agora, elas tinham tanta verdade quanto os argumentos que seu pai usara para convencê-la a aposentar o seu melhor homem.
O despertador do dispositivo de pulso tocou às seis horas da manhã, como todos os outros dias. Ela o desativou com um gesto seco sentou-se na mesma cama onde Opto estivera com ela pela última vez há mais de dois anos.
Ele não volta. E eu não vou atrás.
Essa era a verdade que ela repetia para si mesma todas as manhãs.
Os primeiros raios de luz atravessavam a fresta da janela. Gladish se levantou, vestiu a roupa de sempre, prendeu o cabelo de qualquer jeito.
Mais um dia. Mais uma semana. Mais um mês.
O tempo para Gladish adquirira uma qualidade estranha: os dias se repetiam com tanta precisão que pareciam uma única manhã infinitamente esticada. Gladish sentia isso agora mais do que nunca. Um ano e três meses desde a cerimônia, desde que começara a desconfiar. Um ano e três meses de patrulhas clandestinas que não encontraram nada.
Ela saiu do aposento e desceu os níveis sem pressa. O elevador externo estava lotado, trabalhadores indo para os turnos, crianças indo para as escolas improvisadas, um grupo de fadas carregando caixas de ferramentas que pareciam gigantes em suas mãos. Gladish desceu até o nível comercial, comprou um chá de uma humana-anã que sempre sorria, sentou-se em um banco diante de um dos reatores.
Aquele mesmo pensamento que a atravessava como uma lâmina há pouco mais de um ano surgiu
Tudo funciona bem demais.
Dessa vez vinha com um sentimento de resignação em vez de alerta.
Nos primeiros meses, ela acordava todas as manhãs esperando uma notícia, um relatório das fadas, um sinal, qualquer coisa que confirmasse que sua intuição não era apenas paranóia. Nada! Teni e Cali voavam nos limites mais distantes, como Gladish autorizara. Voltavam com relatórios detalhados: nômades em deslocamento, manadas de animais selvagens, nada fora do comum. Nenhum sinal do Conselho, nenhuma ameaça real.
Talvez Tisha estivesse certa e os sistemas de camuflagem sejam suficientes. Talvez eu tenha visto sombras onde não havia nada.
Gladish esvaziou o copo de chá e o devolveu à vendedora.
— O mesmo amanhã?
— O mesmo.
Como tudo.
Ela subiu dois níveis até o mirante que dava para o vazio entre as plataformas. Seu olhar fixado tentando enxergar o que não podia. Trinta metros abaixo, o solo da floresta, invisível dali. Território das fadas, local onde naquele exato momento, Teni provavelmente voltava de mais uma patrulha. Gladish se apoiou no parapeito. O vento soprava fraco, carregando o cheiro metálico dos reatores.
E se eu estivesse errada o tempo todo?
Agora o pensamento era apenas um incômodo surdo, uma casca de ferida que estava prestes a cair e deixar uma pequena cicatriz onde antes estivera.
— Gladish. — A voz veio de baixo, da altura dos joelhos.
Teni estava ali, pousada no parapeito, as asas translúcidas ainda vibrando suavemente.
— Teni. Não te vi chegar.
— É a ideia.
A fada voou até ficar na altura dos olhos de Gladish. Seus cabelos verdes estavam desalinhados, sinal do voo longo.
— Mais um relatório de rotina — disse Teni, sem rodeios.
— Nada. Como nas últimas vinte vezes.
— Vinte e três — corrigiu Gladish. — Eu contei.
— Eu também.
O silêncio entre elas era cansado, como duas pessoas que compartilham uma aposta perdida.
— Você ainda acha que há algo lá fora? — perguntou Teni. Gladish demorou a responder.
— Não sei mais.
A fada não disse nada. Apenas a observou com aqueles olhos escuros e antigos que pareciam ver mais do que mostravam.
— As fadas continuarão voando — disse Teni, finalmente. — Prometemos. Mas se nada aparecer no próximo ano...
— Eu sei. — Gladish não deixou a fada terminar.
— Se nada aparecer, eu mesma peço para pararem.
Teni inclinou a cabeça.
— Você mudou.
— Só cansei. A fada pareceu considerar isso por um momento. Depois bateu as asas e subiu alguns metros, pronta para partir.
— Gladish.
— Diga.
— Seu pai nunca confiou apenas nos sistemas. Você herdou essa desconfiança. Essa é a sua herança.
Herança.
Gladish repetiu a palavra em silêncio enquanto Teni desaparecia na direção da árvore mais próxima.
Quanto mais o tempo passa, menos certeza tenho se isso é força ou paranoia.
A noite caiu, ou o que passava por noite sob a cúpula. Os reatores intensificaram o brilho, banhando os níveis de uma luz verde mais forte. Gladish ainda estava no mirante. Não se movera em horas.
Ela se afastou do parapeito. Os passos ecoaram no metal vazio.
Talvez Opto tenha razão em me odiar. Afastei ele por nada. Guardei um segredo que ninguém procuraria. Perdi o único que...
Lá embaixo, nos níveis mais baixos, nos bares que a luz verde não alcançava, alguém pedia a terceira dose da noite. Alguém que não era mais um guerreiro. Alguém que Gladish não via há um ano e três meses.
Opto
Ela não iria atrás. Já decidira isso há muito tempo. Mas pensava. Sempre pensava.
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Será que Gladish estava errada todo este tempo?





Entrei no teu perfil. Achei o artigo de apresentação dessa história. Salvei para conhecer um pouco desse teu trabalho. Pretendo fazer isso em breve.