A Herdeira e a Sombra | Capítulo 5 | Caminho Oficial
Há momentos em que obedecer deixa de ser uma virtude. E agir passa a ser o único dever possível.
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Marchan Teitor recebeu-a em seus aposentos, no ponto mais alto de Sahkiz. O encontro dispensava formalidades: nada de guardas, assistentes ou telas holográficas exibindo dados estratégicos. Apenas o elfo ancião, uma cadeira de madeira esculpida e uma janela, de onde Gladish podia ver que chegara em uma das copas mais altas da floresta. A vista se estendia até o horizonte, copas roxas e verdes como um mar sob seus pés. Em cada folha gigante, veios brilhavam com uma luz hipnotizante.
— Sente-se, Gladish.
Ela sentou. O assento era duro, feito para postura em vez de conforto.
— Fui aos postos internos — disse, sem preâmbulo. — Passei três dias percorrendo as estruturas que ninguém visita.
Marchan não reagiu. Apenas esperou.
— Antenas desalinhadas, sensores descalibrados, soldados que não lembram a última ronda a pé. Uma mensagem de erro piscando em uma tela há sabe-se lá quanto tempo. Ninguém leu.
— Você anotou tudo?
— Anotei.
— E o que concluiu?
A pergunta era simples. Gladish demorou a responder.
— Concluí que não é uma falha sistêmica. Alguém decidiu que os sistemas substituem os olhos. E essa decisão está errada.
Marchan inclinou a cabeça. Pelos cantos da boca, um movimento quase imperceptível, algo a meio caminho entre o sorriso e o cálculo.
— Você levou isso à assembleia?
— Ainda não.
— Por quê?
Gladish sustentou o olhar do elfo.
— Porque vão dizer que sou alarmista, que sou nova, que não entendo. E porque Tisha venceu a votação. Quinze por cento de redução. A assembleia já decidiu.
Marchan levou algum tempo para responder. Quando o fez, a voz era baixa.
— A assembleia decide com as informações que tem. Não com as que não quer ter.
— O senhor votou com ela.
— Votei. Como eu disse, a proposta era razoável. Com as informações disponíveis.
Informações disponíveis.
Gladish repetiu as palavras em silêncio. Sentiu o peso delas.
— E se as informações disponíveis estiverem erradas?
Marchan não respondeu de imediato. Levantou-se da cadeira, foi até a janela. Lá fora, os poucos reatores pulsavam sua luz verde contra o céu artificial da camuflagem.
— Informações são incompletas, Gladish. O problema está principalmente no que os sensores não mostram.
Ele se virou de volta.
— Você quer mais vigilância, quer mais olhos no campo, quer devolver recursos para as patrulhas. Isso é compreensível. Mas a assembleia não vai aprovar. Não agora. Não com seis anos de silêncio.
Gladish apertou a mandíbula.
— E o senhor? Aprovaria?
Marchan a olhou por um longo segundo. Havia algo nos olhos dele, uma fadiga que ia além da idade, algo que Gladish não sabia nomear.
— Eu aprovaria uma investigação discreta. Nada que assuste a assembleia, nada que gere pânico. Apenas olhos onde os sensores não alcançam.
— Olhos como os das fadas.
A frase escapou antes que Gladish pudesse contê-la. Marchan não confirmou nem negou.
— As fadas são leais a Sahkiz, mas são mais leais à floresta. Se você quer ajuda delas, terá que pedir. E terá que aceitar a resposta que derem.
O encontro terminou pouco depois. Gladish desceu os degraus dos aposentos de Marchan fazendo as contas do que levava consigo. Uma fresta. Menos que uma porta, mais do que qualquer outro líder ofereceria.
Educadamente evasivo. Mas uma fresta serve para passar.
Dias se passaram.
Gladish tentou falar com Ictius Nêmarî. O anão a ouviu com paciência, acariciando a barba grisalha, mas no final apenas disse que ela era jovem, que a energia se gasta melhor em batalhas que existem do que em ameaças imaginárias.
Tentou falar com Aalin Hurtholm. O meio-elfo respondeu com perguntas, muitas perguntas, até que Gladish percebeu que ele não estava buscando respostas. Estava avaliando se valia a pena se posicionar ao lado dela. Decidiu que não.
Tentou falar com Liut Carcamenon. Ele murmurou uma oração e disse que confiava nos desígnios dos deuses. Gladish saiu antes de perder a paciência.
O fechamento foi gradual, educado, quase invisível. Cada um a ouviu, desviou o assunto com cortesia e ficou esperando que ela desistisse sozinha. Em vez de desistir, ela aprendeu.
Convencê-los está fora do meu alcance. Vencê-los no voto, também. E esperar que a assembleia mude de ideia é apostar que o perigo terá a gentileza de aguardar.
Nem bater de frente, nem abaixar a cabeça. O meio, mãe. Você tinha razão.
Então vou fazer o que meu pai faria. Vou agir.
Ela encontrou Teni no limite entre a cidade e a árvore. A fada estava flutuando a poucos centímetros do chão, os olhos fechados, as asas translúcidas vibrando suavemente. Parecia meditar, ou escutar algo que Gladish não podia ouvir.
— Teni.
A fada abriu os olhos.
— Gladish. Não esperava você aqui.
— Preciso falar com você.
Teni a observou por um momento. Depois voou para mais perto, pousando em um nó da casca, ainda pequena, mas próxima o bastante para que Gladish não precisasse gritar.
— Sobre o quê?
— Sobre segurança. Sobre o que os sensores não mostram. Sobre o que a assembleia não quer ver.
Gladish se ajoelhou para ficar mais próxima do nível dos olhos da fada. O gesto era só prático. Teni notou mesmo assim.
— Você está preocupada.
— Estou.
— Mais do que na última vez que conversamos.
— Muito mais.
A fada cruzou os braços minúsculos sobre o peito. O vento balançou seus cabelos verdes.
— O que você quer de nós, Gladish?
A pergunta direta a pegou desprevenida. Por um instante, pensou em dar uma resposta política, algo sobre cooperação, sobre dever, sobre aliança entre fadas e milícias. Desistiu.
— Quero que vocês vigiem o que não estamos vigiando. Os limites internos, os primeiros perímetros fora da floresta, as bordas onde os sensores substituíram os olhos. Quero saber se há algo lá fora que a assembleia está ignorando.
Teni não respondeu de imediato.
— Isso não é autorizado — disse, finalmente.
— Eu sei.
— A assembleia proibiu patrulhas não protocoladas.
— Eu sei.
— Você está pedindo para nós descumprirmos a lei.
— Estou.
O silêncio se alongou. Gladish podia ouvir os reatores pulsando, distantes, rítmicos.
— Por que confia em nós? — perguntou Teni. — E não nos outros?
— Porque a floresta fala com vocês de um jeito que não fala conosco e… — fez uma pausa e desviou o olhar por um instante. — …E porque não tenho mais ninguém.
Teni ficou imóvel por tempo demais. Quando se moveu, foi para voar em círculos ao redor da cabeça de Gladish, um padrão que só parecia aleatório.
— Cali vai querer participar — disse a fada, finalmente. — Ela é mais corajosa do que deveria.
— É uma resposta?
Teni parou de voar. Pairou diante dos olhos de Gladish.
— É uma resposta condicional. Vamos observar. Vamos voar até os limites que a assembleia considera seguros. Vamos ver se encontramos algo. Se não encontrarmos, nunca conversamos sobre isso.
— E se encontrarem?
Teni não respondeu. Mas o olho escuro e antigo que fixou em Gladish dizia tudo.
Se encontrarmos, você vai querer não estar certa.
Gladish se levantou.
— Não posso oferecer proteção oficial. Se forem descobertas...
— Somos fadas — interrompeu Teni. — Ninguém nos vê quando não queremos ser vistas.
Ela se afastou, voando de volta para o interior da árvore. Antes de desaparecer na fenda da casca, parou por um instante.
— Gladish.
— Diga.
— Seu pai confia em nós. É por isso que estamos aqui.
“Confia.” No presente, sem hesitação, como quem enuncia um fato.
Gladish guardou a diferença.
Naquela noite, Gladish sentou-se na mesma escada onde estivera após a cerimônia. O manto cerimonial estava guardado em seu aposento. Agora usava a roupa de sempre, calça escura, blusa curta, os músculos definidos à mostra.
Os reatores pulsavam. Os elevadores subiam e desciam. A cidade funcionava.
Mas agora, em algum lugar lá fora, há olhos pequeninos voando onde os sensores não alcançam.
É o bastante? Não sabia. Mas era tudo o que podia fazer.
Gladish Toth, líder da milícia Gaari, autora não autorizada de patrulhas clandestinas, observou a luz verde dos reatores por um longo tempo antes de se levantar.
O caminho oficial estava bloqueado. Ela abrira outro.
Resta saber se ele me salva, ou me destrói primeiro.
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O que será que as fadas vão encontrar?






