A Herdeira e a Sombra | Capítulo 4 | Ilusão de Segurança
Entre a ousadia e os protocolos institucionais se coloca uma dicotomia que deverá ser endereçada. O que Gladish fará?
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Nos dias seguintes à reunião, Gladish fez o que nenhum líder dos Gaari fazia há anos. Saiu para ver com os próprios olhos. Os postos avançados ainda funcionavam, e não eram eles que a preocupavam. O que ninguém visitava eram os limites internos, as estruturas perdidas entre as linhas de frente e a cidade, onde a vigilância de verdade já tinha virado tela e sensor.
O primeiro posto ficava a trinta quilômetros da borda da floresta. Gladish chegou ao amanhecer, pilotando um biper que pegara emprestado sem pedir permissão. O ar ali já era diferente, menos úmido, menos verde; cheirava a terra seca e metal aquecido. A estrutura era uma cápsula baixa, semi-enterrada, com uma única antena apontada para o horizonte. Dois soldados estavam lá; um dormia, o outro jogava algo em uma tela holográfica, os olhos vidrados.
— Quem comanda aqui? — perguntou Gladish, descendo do biper.
O soldado que estava acordado levantou o olhar sem pressa. Demorou três segundos para reconhecer o símbolo da lança de ponta-cabeça no manto dela. Levantou-se rápido demais.
— A senhora... ninguém avisou.
— Não precisava aviso. Precisava vigilância.
Ela apontou para a tela. Os indicadores estavam todos verdes. Nenhum movimento, nenhuma assinatura energética, nenhuma ameaça.
— Com que frequência os sensores são calibrados?
— Uma vez por mês, senhora.
— E a última?
O soldado hesitou. Abriu um arquivo na tela, digitou, digitou de novo.
— Trinta e oito dias.
Gladish apenas anotou.
O segundo posto ficava a cinquenta quilômetros. A antena estava desalinhada, apontada para o chão, não para o horizonte. Nenhum soldado estava visível. Gladish entrou sozinha, encontrou um alojamento vazio, uma mesa com restos de comida e uma tela piscando uma mensagem de erro que ninguém se importara em ler.
Seis anos sem contato. A frase de Tisha voltou à sua mente.
Gladish passou três dias percorrendo os postos internos. Alguns funcionavam dentro do aceitável; a maioria, não. Sensores descalibrados, antenas subdimensionadas, soldados que não lembravam a última vez que haviam feito uma ronda a pé porque os sistemas faziam tudo, disseram. Os sistemas viam. Os sistemas avisavam.
Ela fez a pergunta em três postos diferentes. E se os sistemas falharem? Recebeu três respostas diferentes, todas significando a mesma coisa: não vão falhar. Ninguém sabia explicar por quê. Apenas acreditavam.
No terceiro dia, Gladish subiu ao ponto mais alto que um elevador podia alcançar. Era uma plataforma de observação no nível superior de Sahkiz, quase nas copas das árvores. Dali, a cidade inteira se estendia abaixo dela como um mapa vivo: os níveis de aço e cristal, os reatores de metal prateado pulsando sua luz verde, os edifícios cilíndricos abraçando os troncos, os bipers cortando o espaço entre as plataformas como insetos metálicos.
Tudo funciona. Era verdade. A energia fluía, as pessoas viviam, as crianças corriam, os mercados fervilhavam.
Funciona demais.
O pensamento a incomodou porque não sabia explicá-lo. Era apenas uma sensação. Como entrar em uma sala onde todos sorriem e saber, no fundo, que algo está errado. Os reatores pulsavam lá embaixo, certos como sempre, e mesmo assim voltou-lhe à cabeça a flutuação de zero vírgula três por cento que ninguém soubera explicar semanas antes. Uma anomalia mínima nos reatores, de um lado. Postos internos largados ao abandono, do outro. Duas coisas sem relação nenhuma, em pontas opostas da cidade. Gladish apoiou as mãos no parapeito de metal. O vento soprava forte ali em cima, bagunçando seus cabelos negros. Ficou ali por um longo tempo, ouvindo o silêncio que a cidade não sabia que tinha.
Naquela noite, Gladish não foi para seus aposentos. Tomou um caminho diferente, subiu dois níveis em vez de descer, e bateu na porta de uma sala que ela não visitava há semanas.
Fazia mais que semanas, na verdade. Gladish não procurava a mãe desde antes da cerimônia. Erana não tinha ido à praça ver a filha receber o manto, e Gladish nunca a cobrou por isso, sabia que para um elfo puro o abalo emocional diante da morte era uma espécie de tabu. As duas carregavam o luto do mesmo homem de maneiras diferentes, e entre elas havia coisas que nenhuma das duas sabia dizer em voz alta.
Erana Luveît abriu a porta com a calma de quem já não se surpreende com visitas noturnas. A mãe de Gladish ainda tinha os mesmos olhos, os mesmos cabelos prateados que ela herdara em tons mais escuros, a mesma postura de quem já desistiu de lutar, mas não de observar.
— Você não vem aqui há tempo — disse Erana, afastando-se para deixar a filha entrar.
— Eu sei.
Gladish sentou-se na beira da cama que um dia foi sua. O quarto da mãe era menor que o dela, mais silencioso. As paredes de metal nu e as poucas plantas que Erana cultivava em vasos improvisados. Não havia telas holográficas, não havia painéis de controle. Apenas uma janela circular que dava para o tronco de uma árvore.
— O que aconteceu? — perguntou Erana, sentando-se à sua frente.
— Tive uma reunião na assembleia. Tisha propôs cortar patrulhas. Quinze por cento. Passei três dias inspecionando os postos. Estão todos abandonados. Sensores descalibrados, soldados que não fazem rondas, mensagens de erro que ninguém leu.
Erana a ouviu sem interromper.
— Depois falei com Marchan. Ele me disse para vigiar, para confiar na minha sombra. Depois encontrei Opto. Ele me disse para agir, que eu preciso da ousadia de um orc. — Gladish fez uma pausa. — Um me diz para esperar. O outro me diz para avançar. Os dois me dizem coisas diferentes, e os dois têm razão.
Erana ficou em silêncio por um longo tempo. Quando falou, a voz era baixa, quase um sussurro.
— Marchan viveu mais de mil anos. Ele aprendeu que o tempo pode ser um aliado. Mas também que o tempo pode ser uma prisão. Opto viveu como um soldado que já viu a morte de perto. Ele sabe que a hesitação pode matar. Os dois estão certos, Gladish. Mas os dois também estão errados.
— Então o que eu faço?
Erana a olhou. Os olhos antigos, gastos, mas ainda vivos.
— Você não pode ser só cautelosa, porque a cautela excessiva é paralisia. E não pode ser só ousada, porque a ousadia sem critério é suicídio. Você precisa dos dois. Precisa ser tão cautelosa quanto Marchan e tão ousada quanto Opto. No mesmo instante.
— Isso não é uma resposta — disse Gladish, com uma ponta de frustração.
— É a única que eu tenho. O equilíbrio não é uma posição confortável, Gladish. É onde você fica quando não há resposta certa e você precisa agir mesmo assim.
O silêncio se instalou entre elas. Lá fora, os reatores pulsavam.
— Seu pai — disse Erana, finalmente — também passou por isso. Ele também foi pressionado de todos os lados. E ele também não sabia o que fazer. A diferença é que ele agia mesmo sem saber.
— E como ele sabia o que era certo?
Erana sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, mas honesto.
— Ele não sabia. Ele escolhia. E vivia com as consequências.
Gladish não respondeu. Ficou ali, sentada na beira da cama, ouvindo os reatores pulsarem lá fora, e pensou nas palavras da mãe. Dois extremos. E ela precisava ser o meio.
Quando saiu, a noite já estava escura. Os reatores verdes brilhavam mais forte. A cidade funcionava. Ela também precisava funcionar.
Naquela noite, Gladish sentou-se sozinha em seus aposentos, uma sala pequena no nível residencial, com uma janela que dava para um dos troncos. As luzes verdes dos reatores entravam pelas frestas, criando sombras dançantes nas paredes.
O que eu faço?
Ela não tinha provas. Tinha apenas observações: sensores descalibrados, soldados relaxados, antenas apontadas para o chão, uma assembleia que preferia cortar recursos a aumentar vigilância.
Se eu levar isso para a cúpula, vão dizer que é alarmismo. Que sou nova. Que não entendo.
E estariam parcialmente certos. Ela era nova. Não entendia toda a política. Mas entendia de segurança. O pai ensinara.
E se eu não fizer nada?
A pergunta doeu mais.
Mas havia um caminho entre os dois extremos. A mãe dissera: nem cautela excessiva, nem ousadia sem critério. Então ela precisava de aliados. Não para conspirar, não para quebrar regras — ainda não. Para construir uma base. Para que, quando ela levasse aquilo à cúpula, não estivesse sozinha.
Ela não sabia se conseguiria. Mas sabia que precisava tentar.
Lá fora, a cidade continuava funcionando. Perfeitamente. Silenciosamente. Cegamente.
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O que será que Gladish vai fazer?





Gostei muito desse capítulo! Sabe aquele dia de preguiça que vc não quer fazer nada? Tá sendo assim hoje...quase deixei pra ler outra hora quando estivesse mais animado, porém a falta do que fazer me fez decidir ler logo pra não esquecer depois. E que bom que decidi isso. Um capito simples e meio que um momento intermediário ou prólogo de alguma coisa grande que começará a se desenrolar. Porém um encontro interessante onde nós conselhos de uma mãe pude sentir uma emoção contida e latente. Não sei se porque valorizo muito essa coisa das relações familiares e mais ainda de mãe e filhos. Muito bom mesmo. Sinto que a qualidade da história e todas as interações dos personagens está se mantendo viva. Me traz aquela sensação que tenho dito de querer saber mais sobre. Aguardando por mais...
Não vou conseguir superar "Ele não sabia. Ele escolhia. E vivia com as consequências."
Estamos de boa com a possibilidade desse trecho aparecer tatuado em mim? Hahahahahahahah
Que capítulo sensacional! Trouxe indignação, raiva, vontade de pegar na mão dela e dominar o mundo.
Quero mais...